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O silêncio feminino diante da bíblia: uma questão cultural cognitiva e prática

¹Manu Moura

Durante três anos e nove meses, foi conduzido um grupo de estudo bíblico para mulheres, denominado FloreSer. Nesse período, observou-se que muitas participantes apresentavam dificuldades em se relacionar com as Escrituras. A leitura da Bíblia era frequentemente percebida como algo distante, e seu estudo sistemático raramente fazia parte da rotina feminina. Embora muitas iniciassem o processo de estudo com interesse, a desistência ocorria de forma recorrente. A partir dessas observações, emergiu a
necessidade de investigar esse fenômeno de maneira mais aprofundada.

Essa experiência localizada reflete uma realidade mais ampla. Nas igrejas evangélicas brasileiras, as mulheres representam a maioria dos membros e desempenham papel ativo em diversas áreas do serviço cristão. No entanto, quando se trata do estudo sistemático das Escrituras, sua participação tende a diminuir. Diante disso, levanta-se a seguinte questão: por que isso acontece?

Partindo dessa problemática, a pergunta investiga as razões pelas quais muitas mulheres demonstram resistência ao estudo bíblico, bem como os motivos que levam outras, embora inicialmente interessadas, a desistirem ao longo do processo.

Para compreender esse fenômeno, a análise é feita a partir de três perspectivas complementares: sociocultural, neurocognitiva e prática. Busca-se investigar de que maneira fatores culturais, hábitos cognitivos relacionados à leitura e dinâmicas presentes nas comunidades cristãs influenciam o engajamento feminino no estudo das Escrituras.

Nesse contexto, a investigação das barreiras que dificultam o engajamento feminino no estudo bíblico torna-se particularmente relevante. O acesso limitado ao estudo sistemático das Escrituras pode gerar lacunas na formação teológica e no desenvolvimento da autonomia interpretativa, influenciando diretamente a participação das mulheres em processos de ensino, discipulado e liderança nas comunidades cristãs.

Os resultados da indagação indicam que esse distanciamento não pode ser explicado por um único elemento, configurando-se como um fenômeno multifatorial. Entre os aspectos identificados, destacam-se fatores socioculturais, como as dificuldades de leitura presentes no contexto brasileiro; fatores neurocognitivos e emocionais; além de pressões cotidianas, como demandas profissionais, responsabilidades domésticas e sobrecarga de tarefas.

O objetivo do questionamento, nesse sentido, não se limita à investigação teórica do fenômeno, mas se estende à reflexão sobre possibilidades de enfrentamento no cotidiano das mulheres. Nesse percurso, o estudo dialoga com contribuições de autoras como Jen Wilkin, no que se refere à centralidade do ensino bíblico intencional; Regina Zilberman, especialmente em relação às práticas de leitura e formação do leitor; e Neiva Amaral e Leonor Guerra, no campo das contribuições neurocognitivas para a aprendizagem.

Como desdobramento dessas iniciativas, no Dia Internacional da Mulher, em 8 de março de 2026, foi realizada uma transmissão ao vivo no YouTube, com a participação de mulheres de diferentes regiões do Brasil. A experiência contribuiu para ampliar a compreensão do fenômeno e evidenciou um aspecto recorrente: o desejo de muitas mulheres de estudar a Bíblia, aliado à percepção de falta de orientação e acompanhamento nesse processo.

Tais evidências reforçam a necessidade de investimento na formação de mulheres capacitadas para ensinar outras mulheres a ler, compreender e estudar as Escrituras, como explica Jen Wilkin, em seu livro Mulheres da Palavra. Nesse sentido, promover o acesso ao estudo bíblico sistemático não apenas amplia o conhecimento teológico, mas também contribui para o desenvolvimento de uma fé mais consciente, fundamentada e ativa.

Além disso, a pergunta evidencia a importância de investigar esse fenômeno de forma sistemática, uma vez que envolve dimensões ainda pouco exploradas no contexto acadêmico e eclesiástico. Ao integrar perspectivas socioculturais, neurocognitivas e práticas, o estudo contribui para o debate sobre a formação bíblica feminina, oferecendo subsídios tanto para a reflexão teórica quanto para o desenvolvimento de estratégias pedagógicas mais eficazes no engajamento de mulheres no estudo das Escrituras. Afinal, conforme se lê em Colossenses 3:16, “habite ricamente em você a Palavra de Cristo”, o
que remete a importância de uma relação constante e profunda com as Escrituras.


¹ Graduada em Teologia pela Faculdade Cidade Teológica Pentecostal.

Manu Moura

Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional. São Paulo: Vida, 2001.
WILKIN, Jen. Mulheres da Palavra: Como estudar a Bíblia com nossa mente e coração. 2. ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2021
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
AMARAL, V. F.; GUERRA, L. Neuroscience and Education: Looking out for the future of learning. Frontiers in Education.

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