O chamado cristão¹ é, antes de tudo, um convite à verdadeira liberdade²: liberdade para crescer na fé³ e para florescer em uma vida frutífera⁴ diante de Deus.
Mas a quem o apóstolo Paulo dirigia palavras tão desafiadoras? Seria a um grupo de elite espiritual, formado por homens e mulheres extraordinários, quase perfeitos?
Sabemos que não. As cartas apostólicas foram dirigidas a pessoas comuns — homens e mulheres que, antes de conhecerem a Cristo, pertenciam às mais variadas classes de pecadores. Eram gente marcada por fraquezas, limitações e histórias imperfeitas, exatamente como nós.
A Bíblia está repleta de exemplos de um Deus amoroso e poderoso que escolhe homens fracos para realizar os seus propósitos eternos. Em sua soberania, Ele concede ao ser humano a dignidade de participar de sua obra, permitindo-lhe agir em liberdade e responder voluntariamente ao seu chamado.
O Deus supremo, Criador do universo, decide incluir o homem em seus desígnios.
Conta-se a história de um pregador que visitava um agricultor e foi levado a conhecer um belo arrozal. Enquanto observavam as ondas douradas do campo balançando ao vento, o pregador comentou:
— João, você e Deus certamente fizeram um excelente trabalho aqui.
O agricultor permaneceu em silêncio por alguns instantes, contemplando a plantação. Então respondeu calmamente:
— O senhor deveria ter visto como estava quando Deus tinha o campo só para Ele.
A observação, simples e profunda, revela uma verdade espiritual essencial: Deus criou o mundo, mas escolheu envolver o homem no cultivo da vida.
A missionária Elisabeth Elliot expressou essa mesma ideia com profunda reverência ao afirmar:
“Depois da Encarnação, não conheço verdade mais espantosa e humilhante do que esta: um Deus soberano ter ordenado a minha participação.”
O agricultor plantou o arroz porque foi encorajado a trabalhar.
O campo não existiria sem seu esforço paciente, sua inteligência e sua dedicação.
Mas também não existiria sem Deus.
Sem a terra criada por Ele, sem o sol que Ele ordenou que brilhasse, sem a chuva que Ele envia e sem a vida misteriosa da semente germinando no solo.
A disciplina cristã nasce exatamente desse encontro entre graça divina e resposta humana. É o “sim” de todo o coração que o homem oferece ao chamado de Deus.
Quando esse “sim” acontece, algo extraordinário começa a surgir na sociedade.
Um exemplo frequentemente citado é o da cidade de Almolonga, na Guatemala. Durante muitos anos, a cidade foi marcada por altos índices de alcoolismo, violência e
práticas ocultistas. Contudo, ao longo do tempo, missionários cristãos começaram a anunciar o evangelho e muitas famílias se converteram.
Gradualmente, a realidade social começou a mudar. Relatos apontam que a criminalidade caiu drasticamente, a ponto de prisões locais terem sido fechadas por falta de detentos. Paralelamente, a região passou a apresentar uma produtividade agrícola impressionante, tornando-se conhecida pela fertilidade do solo e pela abundância de suas colheitas.
Mais do que um fenômeno econômico, muitos veem ali o testemunho de uma transformação espiritual profunda. Homens e mulheres anônimos, dedicados ao evangelho, tornaram-se instrumentos de renovação moral e social.
Algo semelhante pode ser observado em outras áreas da vida pública.
No aquecimento das apresentações da Orquestra Jovem do Estado de São Paulo e da Orquestra Jovem Tom Jobim, não é incomum ouvir músicos tocando, espontaneamente, hinos que aprenderam ainda na infância em suas igrejas.
Muitos desses jovens tiveram seu primeiro contato com a música em comunidades evangélicas. Igrejas como a Congregação Cristã no Brasil e a Assembleia de Deus, conhecidas por sua forte tradição musical, têm contribuído significativamente para a formação de instrumentistas.
Além disso, diversos projetos sociais desenvolvidos por igrejas nas periferias têm oferecido acesso ao ensino musical para crianças e adolescentes que, de outra forma, dificilmente teriam essa oportunidade.
Assim, talentos que talvez permanecessem ocultos florescem e alcançam os palcos da música erudita. Esses exemplos, da agricultura à música, revelam apenas uma pequena amostra de algo maior.
Onde o evangelho cria raízes profundas, a vida humana começa a florescer.
Valores são restaurados.
Talentos são despertados.
Comunidades são transformadas.
É o próprio Deus agindo no mundo por meio de seu povo.
E assim, silenciosamente, a Igreja continua sua vocação histórica: ser sal da terra e luz do mundo.
É a Igreja presente na sociedade, não dominando pela força, mas servindo com fidelidade, para que, em todas as coisas, o nome do Senhor seja glorificado.
Referências: ¹ – 1Co1.9; ² – Gl 5.13; ³ – Cl 3.15 ; ⁴ – Cl 3.23,24
Pastor João Batista é graduado em Engenharia Operacional e em Teologia. É especialista em aconselhamento Bíblico. Atua como professor da FCTP, como radialista na rádio AD Cidade, e como pastor auxiliar na Igreja AD Cidade. Seus Interesses concentram-se no ensino bíblico, no aconselhamento cristão e na prática pastoral.