Um certo dia em um evento interdenominacional fui arguido por um participante que me perguntou sobre minha filiação denominacional. Quando ele foi informado que sou da Assembleia de Deus, a resposta dele foi: “Que bom que vocês agora estão começando a estudar a Bíblia!”. E na conversa a percepção não era apenas de que os pentecostais não gostavam de estudar a Bíblia, mas de que eram contra o estudo das Escrituras. A ideia de que os pentecostais são contra o estudo da Bíblia é um estereótipo preconceituoso contra o povo da experiência do Espírito. Com isso, não negamos que haja pessoas dentro do pentecostalismo sem interesse e dedicação ao estudo. Inclusive pessoas que se dizem pentecostais e são contra o estudo bíblico e teológico. Mas isso não caracteriza o movimento pentecostal.
O movimento pentecostal fundante em Atos 2 e o movimento pentecostal moderno no início do século XX são marcadamente caracterizados pelo compromisso com a Palavra de Deus. Isso diz respeito tanto a experimentar o Pentecostes quanto como se vive após à experiência pentecostal. O aparente descaso com o estudo bíblico não se fundamenta na realidade histórica desses dois eventos de destaque da experiência pentecostal. Também vale ressaltar que esse hiato temporal entre o século I e o XX não significa ausência da experiência pentecostal, pois ela faz parte da história da igreja desde sua fundação e se fez presente mesmo nos momentos mais sombrios da história da igreja. Vou apresentar agora quatro motivos para estudar teologia pentecostal.
O primeiro motivo é porque a experiência pentecostal sucede à Palavra de Deus. O Pentecostes em Atos 2 é uma experiência fundamentada na Palavra de Deus. É uma promessa do Pai (Jl 2.28-29). E foi prometida também por Jesus (Jo 14.16-18, 26; At 1.4-5,8). Semelhantemente, o movimento pentecostal moderno começa com a Palavra, em um seminário bíblico (Bethel Bible College). Estudantes se debruçaram sobre o livro de Atos e pesquisavam sobre o batismo no Espírito Santo. A partir da verdade bíblica encontrada nos estudos, os estudantes começaram a orar para também experimentar o batismo no Espírito Santo. O estudo bíblico guiou os estudantes à busca pela experiência pentecostal. Observa-se, nestes dois casos, que a Palavra veio primeiro e depois veio a experiência.

O segundo motivo, é que quem ama o Espírito, ouve e se dedica ao estudo da Palavra de Deus. Espera-se que aqueles que experimentam o poder do Espírito sejam guiados pelo Espírito. E todo aquele que é guiado pelo Espírito é dirigido pela Palavra de Deus. A Bíblia é inspirada pelo Espírito Santo, é a palavra de Deus. O Consolador inspirou os escritores bíblicos para escreverem a sua Palavra (2Pe 1.20-21). E o Espírito Santo ilumina os leitores hoje para que compreendam e vivam a Palavra de Deus (Jo 14.26; 1Co 2.11-12).
O terceiro motivo é porque a teologia pentecostal é uma teologia encarnada. A experiência pentecostal exalta a Cristo (Jo 16.14; At 2; Lc 24.25-27). Não é uma teologia materialista, nem espiritualista. É a teologia do Verbo que se fez carne. Uma teologia encarnada onde o logos e o patos se unem e constituem a práxis do discípulo do Verbo encarnado. A principal diferença reside no modo como os pentecostais leem a Bíblia. Isso incomodou os ramos dominantes da teologia na época do surgimento do movimento pentecostal moderno. De um lado os liberais e do outro os fundamentalistas. Parecia que só poderia haver teologia liberal e teologia do fundamentalismo. Ao surgir o pentecostalismo, a teologia pentecostal se recusa veementemente a se enquadrar no modelo teológico dos liberais ou dos fundamentalistas.
O liberalismo e o fundamentalismo lutavam com as mesmas armas e dentro dos mesmos limites, a razão. O pentecostalismo sai desse ringue, entende que a vida e a espiritualidade cristã não cabem nesses limites. Compreende que a Palavra de Deus não é apenas verbo, é carne também. Não se limita à razão, mas também inclui a experiência. E a vontade e as emoções, embora distintas, estão de algum modo interligadas. Para os pentecostais a revelação só é possível em uma interação do sobrenatural com o natural, o paradoxo do encontro do transcendente com o imanente. Portanto, a revelação conjuga a objetividade da realidade com a subjetividade da experiência.
Assim, para os pentecostais, qualquer fé que se resuma apenas à razão é inferior ao que a Bíblia revela para o povo de Deus conhecer e viver. Da mesma forma, qualquer fé que se reduza apenas à experiência, não consegue alcançar o que a Bíblia oferece ao povo de Deus. Dessa forma, o estudo teológico e bíblico dos pentecostais é um diálogo constante entre a reflexão e a experimentação. Como cantamos no hino da Harpa Cristã (126) “às alturas santas ninguém voa sem as asas da humilhação”. Nossas experiências são insuficientes, nossas reflexões também. Uma necessita da outra. A revelação de Deus é conhecida por meio da reflexão e experimentação. Somos incapazes de levantar voos às alturas santas sem que nossa inteligência seja humilhada, precisamos da revelação escrita, a Bíblia, e do Espírito Santo, o inspirador e o iluminador. O Espírito Santo é quem ilumina o entendimento e aplica ao coração. Isso nos revela um quarto motivo: estudar teologia pentecostal humilha racionais e místicos para que voem às alturas santas.
Apesar de discordar do estereótipo de que pentecostais não estudam, admito que há pentecostais que não estudam e outros que hostilizam o estudo. A rigor, essa é uma postura antipentecostal. Pois, o Espírito que inspirou a Palavra e que ilumina a Palavra não é contra o exame zeloso das Escrituras, pelo contrário Ele é agente ativo no processo de estudo que é um ato de adoração e que exalta a Cristo. Um estudo piedoso das Escrituras conduzirá inevitavelmente à experiência do Espírito. Apenas o academicismo, estéril por natureza, apagará o Espírito Santo, bem como o misticismo que despreza as Palavras inspiradas pelo Espírito.
Há muitos motivos para estudar teologia pentecostal dentre eles apresentou-se quatro: a experiência pentecostal sucede à Palavra de Deus; quem ama o Espírito, ouve e se dedica ao estudo da Palavra de Deus; a teologia pentecostal é uma teologia encarnada; e, estudar teologia pentecostal humilha racionais e místicos. Enfim, todos esses motivos se resumem em conhecer a Deus, amá-lo e servir ao seu lado com alegria! Em outras palavras, tornar-se semelhante a Jesus ao se inserir em uma comunidade comprometida com o estudo e a prática do estudo, zelo pela Palavra e movida pelo Espírito.
Hilquias Benício é Pastor da AD Cidade, doutorando em Ministério pela Lancaster Bible College, mestre em Teologia pelas Faculdades Batistas do Paraná, bacharel em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo e bacharel em Ciência da Computação pela Universidade Estadual do Ceará. Membro do Grupo de Pesquisa Religião e Internet.