Por Hycaro Rocha • 10 julho de 2026 – Fortaleza, CE – Brasil
4 min de leitura
Há um equívoco antigo que insiste em atravessar séculos: ler o Apocalipse como um “Roteiro de filme”, um calendário secreto de catástrofes a desvendar. Essa leitura, fascinada pelas perguntas “quem”, “do quê” e “quando”, transforma o último livro da Bíblia num roteiro de eventos futuros e, ao fazê-lo, silencia justamente aquilo que o texto mais deseja dizer. Alimenta-se, assim, um pietismo evasivo, uma espiritualidade de fuga que espera apenas ser arrebatada do mundo, em vez de ser transformada dentro dele.
Até quando, Senhor, sofreremos? É o clamor que atravessa cada página, o lamento antigo que ecoa em cada geração oprimida, em cada Igreja que espera.
Mas, como lembra Eugene Peterson, “Apocalipse não é predição, mas percepção”. E é nessa pequena inversão de sentido que tudo se reorganiza: o livro não foi escrito para satisfazer a curiosidade sobre o amanhã, mas para revelar, com a violência luminosa dos símbolos, a estrutura espiritual, política e cultural do hoje. Walter Brueggemann complementa essa compreensão ao afirmar que os profetas, embora credores do futuro, voltam sua preocupação essencialmente para o presente, na medida em que o futuro o afeta. O Apocalipse é, portanto, um livro atemporal: revelação não do que ainda vai acontecer, mas do que já está acontecendo, sob a pele do tempo.

Seus símbolos carregam camadas que revelam o agora, o já e o ainda não. A Babilônia, por exemplo, não é apenas codinome para Roma antiga, mas figura permanente de toda idolatria, arrogância, injustiça e sedução espiritual que se repete em cada império, em cada sistema, em cada século. Nelson Kraybill descreve o livro assim: “não é catálogo de previsões, mas um projetor que lança imagens arquetípicas do bem e do mal sobre uma tela cósmica”. João não retrata apenas o inimigo lá fora; revela quem somos nós, a igreja em confronto perpétuo com o mundo.
Até quando sofreremos? Pergunta-se ainda, e o silêncio do céu não é ausência, mas tempo de gestação. Essa revelação exige o que se pode chamar de imaginação profética: a capacidade de perceber e anunciar uma realidade alternativa à ordem dominante, inspirada no propósito redentor de Deus. Os profetas não se limitam a denunciar o mal; eles anunciam um novo modo de enxergar a realidade, rompendo com a consciência conformada que os impérios políticos, econômicos e religiosos tentam impor como único horizonte possível. Essa imaginação consola o oprimido, confronta o opressor e convoca a comunidade de fé a sonhar e agir segundo o Reino, e não segundo o império.
Por isso, a pergunta correta nunca foi “quem é a Babilônia hoje”, mas o que há de babilônico em nós. David Silva sintetiza esse chamado: o leitor é convidado a discernir os traços babilônicos do sistema em que vive e a testemunhar profeticamente contra eles. Tampouco o enigmático número 666 aponta para um indivíduo específico; ele nomeia, antes, todo tirano e todo sistema que segue a lógica do dragão e oprime o Cordeiro e seus seguidores. Como ensinam Scot McKnight e Cody Matchett, os discípulos dissidentes precisam discernir o dragão por trás das coisas selvagens de todas as épocas, inclusive das nossas.
Perceber a Babilônia é também aprender a negá-la romper com as corrupções e com o espírito de dominação que, silenciosamente, se infiltram na igreja e na vida pessoal. Ser dissidente, afinal, não é separar-se do mundo em espera passiva, mas imaginar um futuro melhor e viver, desde já, como se esse novo mundo já tivesse começado. Por enquanto, nunca mais. É essa, talvez, a mensagem mais urgente do Apocalipse: não um aviso sobre o fim dos tempos, mas um convite a habitar o presente com os olhos do Reino.
O apocalipse nos ensina à olhar para o cordeiro e contemplá-lo, mesmo no sofrimento, nas densas trevas de nossos dias, no profundo abismo, em nossos dias de pecado e dor pela percepção de nossa pecaminosidade, olhar para o cordeiro é se lembrar, ele vence! Vence a rebelião de seu povo, o pecado, a morte, a dor e de alguma forma nos cercar por detrás e por diante, e puseste sobre nós a sua mão (Salmos 139.5).
Hycaro Rocha, aluno do curso de Bacharel em Teologia da Faculdade Cidade Teológica Pentecostal.
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