A missão da Igreja no cuidado e proteção da infância: prevenindo ao abuso sexual infantil

Por Bianca Baima  • 31 julho de 2026 – Fortaleza, CE – Brasil

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No período da infância a criança encontra-se em uma fase de desenvolvimento e, por isso, devido à sua condição e vulnerabilidades, necessita de cuidado e proteção. Porém, no Brasil, essa ainda é uma violência real, conforme demonstra o último anuário publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Diante disso, levanta-se a seguinte pergunta: qual é a responsabilidade da Igreja diante dos casos de abuso sexual cometidos contra crianças? 

A Igreja se trata de um conjunto de pessoas que de maneira comum creem na vida e obra de Jesus Cristo, e que possuem o compromisso de juntas adorarem e servirem a Deus. A sua missão não surge por meio de iniciativas humanas, mas através da iniciativa divina de envio do próprio Deus ao mundo. Assim, a Igreja existe para participar da missão de Deus, refletindo seu caráter em todas as áreas da vida. Nesse sentido, o cuidado e a proteção das crianças fazem parte dessa missão e encontram fundamento nas Escrituras Sagradas. 

FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS PARA O CUIDADO E PROTEÇÃO DAS CRIANÇAS 

A dignidade da criança como portadora da Imago Dei 

A narrativa de Gênesis apresenta como todas as coisas foram criadas por  Deus. Em Gênesis 1:26-27 é narrada a criação da humanidade (homem e mulher). Ao criar o ser humano à sua imagem e semelhança, Deus lhe confere valor, dignidade e direitos por ser portador dessa característica exclusiva. Assim, a humanidade distingue-se dos demais seres criados por Deus, pois somente ela é portadora da imagem divina. Nesse sentido, também as crianças são dignas e merecem ser respeitadas e cuidadas não apenas quando forem adultas, mas desde a infância.

⁠O cuidado pastoral e comunitário

Atos 2:42-47 demonstra que a igreja de Jerusalém apresentava características marcantes como comunhão, solidariedade, compaixão, unidade e a atuação do Espírito Santo. Ainda hoje, os cristãos são chamados a demonstrar, de maneira prática, a transformação experimentada em Jesus Cristo. Assim, o cuidado, o compromisso e o amor devem marcar os relacionamentos da comunidade cristã. Desse modo, esse cuidado pastoral e comunitário também deve alcançar a parte mais vulnerável da Igreja: as crianças. Elas possuem diferentes dimensões em suas vidas e, por isso, necessitam ser enxergadas de maneira integral, recebendo cuidado e proteção.

A prevenção como expressão do amor cristão

Em João 13:35 existe uma característica fundamental e marcante que deve distinguir os discípulos de Jesus Cristo das demais pessoas: o amor. Este amor deve ser notável não somente nas palavras, mas também, comprovado através de ações práticas para que assim seja possível que todos (sejam cristãos ou não cristãos) consigam saber e reconhecer aqueles que são verdadeiros discípulos. Nesse sentido, compreende-se que proteger as crianças também é uma forma concreta de expressar o amor cristão.

ABUSO SEXUAL INFANTIL: DEFINIÇÕES E REPERCUSSÕES NA INFÂNCIA

O abuso sexual é um pecado cometido contra Deus e contra o próximo criado à imagem de Deus. Andrade (1996, p. 295) afirma que o pecado é a “transgressão deliberada e consciente das leis estabelecidas por Deus” e também “errar o alvo estabelecido pelo Criador ao homem: viver para a glória de Deus”. O abuso sexual distorce essa ordem da criação e viola a dignidade da criança como portadora da imagem de Deus.

Segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, o abuso sexual é definido como “todo ato de natureza erótica, com ou sem contato físico, com ou sem uso de força, entre um adulto ou adolescente mais velho e uma criança ou adolescente”. Essa violência não se limita à cor, gênero, classe social, condição econômica ou idade específica. Por isso, em todos os ambientes é necessário que se esteja atento quanto à segurança das crianças. 

PREVENÇÃO E DENÚNCIA  DO ABUSO SEXUAL

Uma das estratégias utilizadas para prevenir o abuso é ensinar as crianças sobre a importância e valor do seu corpo. Vitória Reis, em seu livro infantil “Pare: Um jeito cristão de ensinar prevenção”, aborda esse tema de forma lúdica. Em um trecho do livro, a autora escreve: “Há toques que são estranhos, outros que são normais, é importante saber diferenciar, pois algumas partes do corpo são muito especiais” (Reis, 2025, p. 16). Assim, de forma simples, lúdica e respeitosa, a autora ensina a diferença entre toques abusivos e toques de carinho, demonstrando que é possível abordar o tema em uma linguagem adequada à idade da criança.

Como uma proposta de prevenção, a autora apresenta também o “semáforo do toque”. Segundo ela, o corpo da criança possui partes que, assim como o semáforo, possuem toques que são proibidos, precisam de atenção ou tem acesso liberado. Assim, a autora realiza uma associação entre as partes do corpo e as cores do semáforo para ensinar que alguns toques são proibidos (vermelho), outros precisam de atenção (amarelo) e outros estão liberados (verde). 

Por fim, segundo a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, em seu artigo 13, nos casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra crianças, incluindo o abuso sexual, a denúncia deve ser realizada. Denunciar significa interromper o ciclo de violência e demonstrar cuidado pela vítima, por outras crianças que possam estar sofrendo a mesma violência e por aquelas que, futuramente, poderiam tornar-se vítimas do abusador. A denúncia pode ser realizada no Conselho Tutelar da localidade, através do Disque 190 (Polícia Militar) ou pelo Disque 100 (serviço nacional, gratuito e anônimo destinado ao recebimento de denúncias de violações dos direitos humanos). 

Conforme Provérbios 31.8 diz: “Erga a voz em favor dos que não podem defender‑se; seja o defensor de todos os desamparados.” Assim, cuidar das crianças é responsabilidade da Igreja e um chamado que exige compromisso com sua missão. 

Em Cristo,

Bianca Baima de Sousa, Graduada em Teologia pela Faculdade Cidade Teológica Pentecostal.

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