A teologia não pode ser um fim em si mesma 

Por Prof. Me. Thiago Holanda  • 21 agosto de 2026 – Fortaleza, CE – Brasil

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O ano era 2015 e eu exercia a liderança de jovens em uma Assembleia de Deus na periferia de Fortaleza. Naquela época, minha comunidade testemunhou algo inédito: pela primeira vez na história da igreja, a maioria dos nossos jovens estava matriculada no ensino superior. 

Esse momento singular trouxe consigo desafios igualmente singulares. Pela primeira vez, nossos jovens estavam expostos às filosofias, teorias, dúvidas e provocações que o ambiente universitário apresenta. Não foi fácil lidar com isso.  

Como líder de jovens, fui o primeiro a receber as perguntas que vinham da sala de aula, muitas delas nascidas de provocações feitas pelos próprios professores. Não eram jovens querendo me testar com suas perguntas. Eram jovens buscando um alívio intelectual para dúvidas genuínas. Queriam apenas a segurança de saber que a Palavra de Deus tinha resposta para aquilo que ouviam na universidade.  

Eu também era jovem naquele tempo. Frequentava assiduamente a Escola Bíblica Dominical, era apaixonado por leituras cristãs, já havia concluído a graduação e estava na reta final do mestrado. Ainda assim, algumas daquelas perguntas me deixaram paralisado. Simplesmente não sabia como respondê-las e, por isso, não conseguia auxiliar quem esperava ajuda de mim. Foi nesse contexto que surgiu uma ideia em minha mente, certamente impulsionada pelo Espírito Santo: cursar teologia. Minha jornada teológica não começou por curiosidade intelectual, mas para atender uma demanda ministerial.  

Contei essa história para chegar ao argumento que quero defender neste texto: a teologia deve, sobretudo, ser útil ao Reino, e não um fim em si mesma. 

Sei que isso pode parecer óbvio, mas não é. Não são poucos os estudantes de teologia que, ao longo da formação, acabam se afastando da igreja local. Alguns por ressentimento com práticas que, em alguma medida, destoam do ensino das Escrituras. Outros por não se sentirem devidamente valorizados. Outros, ainda, por sucumbirem a um academicismo seco e sem vida. 

“Conheço inúmeros teólogos inúteis.” Foi essa a frase que ouvi de um amigo, professor de teologia há vários anos. Conversávamos exatamente sobre essa distância crescente entre os teólogos e as igrejas locais, e sobre a preocupação que carregávamos no coração, não apenas com o futuro daqueles estudantes, mas com o futuro da própria igreja. 

A Escritura oferece um modelo claro do caminho contrário. Esdras preparou o coração para três coisas, e nessa ordem: buscar a lei do Senhor, cumpri-la e ensiná-la em Israel (Esdras 7.10). O estudo não termina em si mesmo. Ele desemboca na obediência e, depois, no ensino do povo de Deus. Paulo diz o mesmo ao lembrar Timóteo de que toda a Escritura é “proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir”, a fim de que o homem de Deus esteja preparado para toda boa obra (2 Timóteo 3.16-17). O texto sagrado é descrito por sua utilidade. Se a fonte é útil, o estudo dela não pode ser estéril. 

Que fique claro o que estou dizendo. Não sou contra o rigor acadêmico nem contra a carreira teológica. Sou contra a teologia que não retorna à congregação de onde saiu.  

Se você está lendo este texto e é estudante de teologia, ou sonha em ser um dia, permita-me dar três conselhos que foram úteis na minha caminhada. 

Primeiro: entenda a teologia como ferramenta, não como troféu. Ela existe, acima de tudo, para consolidar o reino de Deus. Você pode usá-la para fins acadêmicos e profissionais sem nenhum problema, pois são usos perfeitamente válidos. Mas Paulo ensina que os dons foram dados “para o aperfeiçoamento dos santos” e para a edificação do corpo de Cristo (Efésios 4.11-12). Desligada dessa finalidade, a teologia não apenas perde o propósito, como pode se tornar tóxica. 

Segundo: procure sempre ter um mentor. Não necessariamente um mentor acadêmico, mas um mentor espiritual. Ser acompanhado por alguém mais experiente e mais sábio é imprescindível na jornada de fé de qualquer cristão e, mais ainda, na de um estudante de teologia. “Como o ferro com o ferro se aguça, assim o homem afia o rosto do seu amigo” (Provérbios 27.17). Foi assim que Paulo formou Timóteo e o instruiu a formar outros (2 Timóteo 2.2). Aprenda a prestar contas não apenas do conteúdo que você aprende, mas daquilo que está no seu coração. 

Terceiro: vigie o orgulho. Quando você sentir a primeira gota de orgulho ou soberba caindo no seu coração, quando notar que seus conhecimentos bíblicos estão acima da média dos irmãos da sua congregação, ore pedindo perdão a Deus e lembre-se de que o conhecimento que você recebeu de presente veio junto com um fardo de responsabilidade: o de cuidar desse conhecimento e compartilhá-lo com os irmãos que sentem sede da Palavra.  

Se, por acaso, você já é um teólogo formado e encontrou este texto na internet, peço que avalie a própria conduta, como eu também avalio a minha. Você tem sido instrumento de Deus para a igreja local? Tem usado com humildade e sabedoria aquilo que sabe para abençoar os seus irmãos na fé? Tem sido útil ao Reino? 

Tiago adverte que os mestres receberão juízo mais severo (Tiago 3.1). Não escrevo isso para condenar ninguém, mas porque quem ensina carrega um peso que os demais não carregam. Se as respostas às perguntas acima forem sim, então a teologia tem sido corretamente usada na sua vida, como instrumento da glória de Deus. Se não, oro para que você corrija a rota, se arrependa de eventuais pecados como o orgulho e a omissão, e use da forma certa os instrumentos que Deus lhe deu. 

“A quem muito foi dado, muito será exigido” (Lucas 12.48). 

Em Cristo, 

Thiago Holanda

Thiago Holanda é economista e doutorando em Administração e Controladoria pela Universidade Federal do Ceará, com formação em Teologia e Aconselhamento Bíblico. Atualmente, é professor do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Ceará (IFCE). É presbítero da AD Cidade e atua na liderança da Juventude Livre.

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