Crê ou Crer

por Renato Pascoal

Se tem uma dupla de palavras que vive confundindo os alunos, essa dupla é “crer” e “crê”. Parecem irmãs gêmeas, mas, como todo bom gêmeo, têm personalidades bem distintas. A confusão é compreensível. Na fala do dia a dia, principalmente em certas regiões do país, o “R” final de “crer” acaba sendo engolido, e a palavra soa exatamente igual a “crê”. Mas, na escrita, a coisa muda
de figura. São duas formas com funções diferentes, e trocá-las é um erro ortográfico clássico.

Vamos entender isso de um jeito simples. Quando usamos “crer”, com “R” no final, estamos diante do infinitivo impessoal do verbo. É a forma bruta, não conjugada, que aparece quando o verbo está fazendo companhia para algum auxiliar, como ir, poder, dever ou querer, ou então quando ele próprio vira um substantivo, representando a ação de crer em si. Por exemplo: eu posso
dizer “vou crer em você”, “preciso crer em algo para seguir em frente” ou ainda “o ato de crer é libertador”. Perceba: em todos esses casos, o verbo não está se referindo a uma pessoa específica no tempo presente; está solto, no infinitivo.

Já “crê”, com acento circunflexo no “e”, é a forma conjugada. Mais precisamente, a terceira pessoa do singular do Presente do Indicativo. Ou seja, usamos quando o sujeito é ele, ela ou você. É o verbo ajustado para indicar uma ação que acontece agora, com um sujeito definido. Exemplos: “ele crê em milagres”, “Maria crê que tudo vai dar certo”, “você crê no que eu falo?”. Nessas frases, há um sujeito claro praticando a ação de crer no momento presente.

Por outro lado, um dia desses, resolvi comparar diferentes traduções de João 3.16. Eis que me deparo com o seguinte: Na ARC (Almeida Revista e Corrigida) e na ARA (Almeida Revista e Atualizada), lemos: “todo aquele que nele CRÊ não pereça”. Na NVI (Nova Versão Internacional), lemos: “todo aquele que nele CRER não pereça”.

A NVI teria errado? Foi aí que resolvi recorrer ao nosso colega e doutor no assunto, o professor Fernando Henrique, que domina não apenas a língua portuguesa, mas também o grego e hebraico.

E ele trouxe a explicação definitiva: A NVI usa o infinitivo para focar na ação de crer. O infinitivo é a forma infinita, não tem sujeito gramatical e, ao apagar a relação entre agente e ação, dá todo o destaque à ação em si. Já a ARA, ao usar o Presente do Indicativo, foca na responsabilidade da pessoa em crer. O indicativo presente traz a ideia de um sujeito definido, de alguém que exerce a fé agora.

Ou seja: ambas as versões estão corretíssimas. A diferença não é gramatical, mas sim uma escolha de ênfase teológica e estilística. A NVI pergunta: “O que importa é o ato de crer?” A ARA responde: “Quem importa é a pessoa que crê.” E as duas estão certas.

Fica aqui meu agradecimento público ao Fernando. Que bênção a nossa ter na faculdade alguém tão preparado para nos tirar dessas enrascadas linguísticas, e ainda com a humildade de quem explica sem esnobar.

E você, leitor, na próxima vez que alguém te perguntar se é “crer” ou “crê”, responda com um sorriso: depende do contexto, do tempo verbal… e de quem você pergunta.

Renato Pascoal é presbítero e líder estratégico da AD Cidade.
Servidor público do
Poder judiciário e professor da FCTP. Mestre em educação,
Especialista em teologia, estatística e direito do trabalho.
Licenciado em letras, física e matemática.

Secret Link