Ao longo dos últimos vinte seis anos, tenho vivenciado os ambientes acadêmicos, majoritariamente entre áreas de exatas e teologia. Por diversas vezes, indagações relativas à minha fé eram motivadas pelo fato de que, enquanto acadêmico, ser cristão era uma contradição de vida. Era (e é) comum ver o termo fé ser utilizado em uma concepção jocosa, de autoengano, uma incerteza. E, por incrível que pareça, por MUITOS cristãos também. Na realidade, as pessoas não somente confundem, como também não entendem a utilização/definição do termo fé. E, embora eu seja cristão desde os meus 5 anos, na transição da adolescência para a juventude, diversas indagações sobre Deus começaram a ter também a minha autoria. Porém, em meu caso, algo muito interessante aconteceu ao ingressar na faculdade. Fazia duas faculdades, dentre elas o Bacharelado em Matemática. E por ser um curso muito denso em teoria, o exercício de pensar abstratamente era um pré-requisito, e por conseguinte acabou me empoderando a vislumbrar o “transcendente”. Ao mesmo tempo, minha linha de pesquisa, desde a iniciação científica, é matemática aplicada. Isto é, estudo como a matemática, algo transcendente, modela a realidade. E, simplesmente, percebi que é justamente isso que rege a nossa vida, mas em um paralelismo divino. Sendo mais claro: Algo transcendente, o Deus Elohim, modela a realidade que fazemos parte. Eureka!
É nesse mesmo sentido que o conceituado professor e teólogo M. James Sawyer (do Seminário Teológico de Dallas) aborda cientificamente toda a obra da criação e consequentemente, verá que fé e razão são intrínsecas à realidade. A fé, quando reduzida à sentimento ou tradição herdada, dificilmente resiste ao ambiente acadêmico, onde toda afirmação é convidada a se justificar. É aqui que entra o estudo teológico sério: não como substituto da fé, mas como disciplina que a examina, articula e defende com os mesmos instrumentos — lógica, evidência, argumentação — que qualquer outra área do conhecimento emprega. A apologética cristã nunca temeu esse escrutínio; nasceu, aliás, da constatação de que boa parte da incredulidade tem raízes menos lógicas do que se supõe: premissas mal examinadas, vieses de confirmação, ou a simples resistência emocional diante de uma verdade moralmente exigente. Nesse sentido, a teologia, agregada a uma ótica filosófica matemática, isto é, científica, permite-nos constatar que a fé é como uma probabilidade altamente favorável de que Deus existe, especialmente quando analisamos o universo que nos cerca e a nós mesmos. Para fins de ratificação deste pensamento, cito o diretor do Instituto Nacional de Saúde dos EUA e diretor do Projeto Genoma Humano:
“Descobri que há uma harmonia maravilhosa nas verdades complementares da fé e da ciência. O Deus da Bíblia é também o Deus do genoma. Deus pode ser encontrado na catedral e no laboratório. Investigando a criação incrível e majestosa de Deus, a ciência pode na verdade ser uma forma de louvor”.
Em 1931, Kurt Gödel, um filósofo e matemático americano-austríaco, demonstrou que todo sistema formal suficientemente rico e consistente contém verdades que não podem ser provadas dentro dos limites desse próprio sistema — o célebre teorema da incompletude. Décadas depois, o mesmo Gödel dedicou-se a formalizar, com o rigor da lógica modal, uma prova da existência de Deus, retomando o argumento ontológico de Anselmo. Não trago isso como prova definitiva, mas como sinal de algo relevante: mesmo o pensamento mais disciplinado da matemática reconhece que a razão, para ser inteiramente honesta consigo mesma, precisa admitir perguntas que a ultrapassam. É exatamente esse espaço — o dos limites da razão pura — que a reflexão teológica se propõe a habitar com seriedade acadêmica, e não com evasão. O teólogo não é apenas um intérprete de textos sagrados ou um guardião de doutrinas; ele é, acima de tudo, um arquiteto da percepção humana sobre o real. Ao articular verdades transcendentais em categorias compreensíveis, o teólogo oferece à sociedade um horizonte de sentido que orienta não apenas a fé, mas também a ética, a política, as artes e a própria ciência. Sua reflexão vai além do religioso: ela molda cosmovisões, fundamenta valores e responde às perguntas últimas que toda cultura, em algum momento, se vê obrigada a formular. A teologia nos permite uma concepção da realidade, pois sua tarefa é mediar o inefável e o cotidiano, o eterno e o histórico. O teólogo não descreve o mundo apenas como ele é, mas como ele pode ser à luz de um projeto de sentido mais profundo (ou divino). Assim, podemos influenciar decisivamente a maneira como as pessoas compreendem a origem, o destino, o sofrimento, a liberdade e a esperança — categorias que estruturam a existência humana. A realidade demanda uma percepção teológica e caso seja suprimida, a visão de mundo corre o risco de se empobrecer, perdendo a profundidade simbólica e a densidade ética que apenas uma reflexão ancorada no transcendente pode proporcionar. Assim, a realidade, sem a mediação teológica, tende a ser reduzida ao imediato, ao mensurável e ao utilitário — empobrecendo a própria condição humana.
O papa João Paulo II definiu fé e razão como “as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” — imagem que sintetiza a relação entre conhecimento científico e questionamento transcendente. Sem o instrumental teológico, tais questões ficam entregues à especulação frágil; com ele, ganham rigor reflexivo e sustentação acadêmica. Em Judas 1:3, somos exortados a lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. E defendê-la não implica recolhimento ou apelo emocional, mas sim sua apresentação como verdade que resiste ao exame crítico — pois brota da mesma Razão que ordena o cosmos e que buscamos decifrar com esforço e inteireza. Por fim, creio que uma má ciência fomenta um ateu, mas a verdadeira, apresenta-nos Deus.
David Souza, Doutor em Engenharia e professor universitário de Matemática, estudante de Teologia na FCTP. Atua como Presbítero na AD Cidade, como líder do Ministério de Novos Membros e Novos Discípulos, e como professor da EBD.