Há algo que se quebrou no percurso da existência humana. Por mais que tentemos negar, por maiores que sejam os esforços em dar as mais diversas explicações para mascarar a dor, a culpa e a angústia que se abatem sobre o ser humano, parece haver um sentimento comum de que há algo desesperadoramente errado conosco. É como se a humanidade se tivesse perdido de si mesma em algum ponto de sua trajetória.
Se o ser humano se sente culpado é porque precisamente é culpado, já afirmou MacArthur (2020, p. 85). A antropologia bíblica possui uma explicação para esse problema humano. Ele tem nome e sobrenome: pecado original. Não é por outra razão que a discussão sobre como nos desvencilharmos dele deve perpassar necessariamente pela maneira como se tem compreendido a natureza humana ao longo dos tempos.
É atribuída a Sócrates a afirmação de que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida” (Guinness, 2022, p. 23). Uma vida examinada, por sua vez, pressupõe eventuais correções de rota. Mas como reparar erros, corrigir percursos, se uma das peculiaridades que marcam a era contemporânea é a convicção de que a solução para todos os problemas humanos está no próprio ser humano? Se somos o problema, como poderíamos ser também a solução? Duas Guerras Mundiais puseram em xeque as crenças da humanidade em seus próprios valores e em sua bondade intrínseca.
A partir dessa crise do humano, algumas alternativas têm sido apresentadas. Por exemplo, o ideário evolucionista/materialista tem afirmado que os seres humanos não passam de animais governados por leis da biologia. A exacerbação desse pensamento é expressa na compreensão de que “[…] nós, e todos os outros animais, somos máquinas criadas pelos nossos genes”, o que faz com que nossa carga genética bem-sucedida seja dotada de um “egoísmo implacável” (Dawkins, 1989, p. 31). Em outros termos, a humanidade, segundo essa perspectiva filosófica, teria sido compelida por seus genes formantes a nascer egoísta.
O curioso é que o maior defensor do materialismo/evolucionismo ateísta, Richard Dawkins, afirma, ao mesmo tempo, que o ser humano não poderia ser forçado a permanecer nesse estado egoísta para sempre. Ou seja, somos convidados – não se sabe por quem ou pelo quê – a superarmos essa condição miserável e egoísta imposta por nosso código genético. Não há palavra mais adequada para descrever essa condição de superação humana do que “transcendência”. Ou, por outra, mesmo que admitíssemos a premissa materialista/evolucionista de Dawkins, há algo no humano que transcende sua própria natureza e o conduz àquilo (ou àquele?) que parece estar fora dele.
Uma outra vertente da antropologia filosófica advoga um redirecionamento do olhar humano, não para seus genes implacáveis, mas para o próprio humano. O principal expoente dessa corrente foi Martin Buber, filósofo judeu que estabeleceu como centro de seu pensamento o encontro profundo de dois indivíduos. Em suas palavras, “O homem se torna Eu na relação com o Tu” (Buber, 2001, p. 68).
Ocorre que essa filosofia do encontro de Buber, apesar de, em princípio, humanizar o discurso e fazer jus à dignidade intrínseca a todo ser humano, parece chegar a uma encruzilhada. Não há esperança no pensamento de Buber, na medida em que “se alguém ainda me perguntar se temos certeza de encontrar aquilo que é correto nesta trilha íngreme: mais uma vez a resposta é não. Não existe certeza”, dizia o autor (Buber, 2014, p. 117).
A verdade é que, para entender todo o problema, precisamos voltar ao início de tudo. A Palavra de Deus deixa claro que o paraíso perdido se chamava Éden. Lá, o ser humano não era – nem pretendia ser – o centro de todas as coisas. Mas, então, veio a queda e, com ela, o pecado. Em um mundo caído, fora dos portões do Éden, foi imposto à humanidade um novo habitat. Vestígios da queda são vistos por todos os lados: cemitérios; presídios; hospitais; forças policiais; guerras; pandemias; catástrofes naturais; violência urbana; crianças abusadas e idosos abandonados; moradores de rua se arrastando como resíduos humanos nas cidades. Este o vale de lágrimas imposto à humanidade, por causa da queda. O problema, assim, é eminentemente teológico, além de antropológico.
Rod Dreher, ao prefaciar a obra de Trueman (2024, p. 11), bem descreve a crise do humano: “Porque os homens se esqueceram de Deus, eles também se esqueceram do homem”. Um diagnóstico preciso dessa humanidade em crise parece levar à conclusão de que se vive em uma sociedade adoecida pelo fardo de pertencer a si mesma.
Justamente porque acreditamos na ilusão de que o domínio e o controle de todas as coisas sofrem os influxos de uma espécie de onipotência humana é que temos desenvolvido cada vez mais o mito da autonomia, expressa em frases como “meu corpo, minhas regras”, “não importa o que pensam a meu respeito, mas o que penso sobre mim mesmo” e “eu sou meu; ninguém é dono de ninguém.” O mais irônico é que todos querem ser reconhecidos, identificados, compreendidos. É como se todos estivessem em sua própria jornada de autorreconhecimento e autoexpressão, mas, ao mesmo tempo, presos em uma sala “[…] gritando o próprio nome para que todos os outros saibam que eles existem e quem são – que é uma descrição razoavelmente adequada das mídias sociais” (Noble, 2022, p. 49).
O problema é que essa busca por identidade nunca se “estabiliza”, justamente porque a luta incessante por pertencimento não pode ser vencida por uma carga genética sobrevivente, pela opinião que se tem a respeito de si mesmo ou pelo encontro com o semelhante. Precisamos de uma testemunha exterior que satisfaça o anseio humano por validação. Alguém cujo olhar efetivamente autentique a humanidade, e que não apenas a reconheça, mas a conheça mais do que a si mesma. Em suma, um que não precise “[…] de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que era a natureza humana” (Jo 2.25).
Werbston Coelho possui formação em Teologia pela Escola Teológica Charles Spurgeon (Curso Livre) e pós-graduação em História, Geografia e Arqueologia Bíblica pela Faculdade Batista Pioneira. Possui Mestrado em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná – FABAPAR. É graduado em Direito, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho e em Direito e Processo Previdenciário. Atualmente, é professor da Faculdade Cidade Teológica Pentecostal, onde atua nas áreas de Antigo Testamento e Antropologia Bíblica. Exerce, ainda, o cargo de analista judiciário – área judiciária – na Justiça Federal no Ceará. Tem experiência na área de Teologia, em nível de graduação e pós-graduação, com ênfase em Antigo Testamento e Antropologia Bíblica.