Por Joelma Veríssimo • 14 agosto de 2026 – Fortaleza, CE – Brasil
4 min de leitura
Quando se fala em ministério pastoral, a atenção costuma estar voltada para o pastor, sua liderança e os desafios de conduzir uma igreja. Ao lado de muitos pastores, porém, há uma mulher que também vivencia, de diferentes maneiras, as exigências da vida ministerial. Ela participa das atividades da igreja, acolhe pessoas, acompanha a rotina da comunidade e, ao mesmo tempo, concilia as demandas da família, do trabalho e da própria vida. Quem cuida de quem dedica sua vida e também está envolvida no cuidado de tantas pessoas?
Foi a partir dessa pergunta que surgiu a pesquisa Entre o Chamado e o Cuidado: a Saúde Emocional das Esposas de Pastores na Assembleia de Deus, desenvolvida como Trabalho de Conclusão de Curso no Bacharelado em Teologia da Faculdade Cidade Teológica Pentecostal (FCTP). O estudo buscou compreender como fatores institucionais, culturais e teológicos podem influenciar a saúde emocional dessas mulheres e quais caminhos podem contribuir para um cuidado mais integral no contexto da igreja.
A pesquisa não teve como objetivo apontar culpados, mas compreender experiências que muitas vezes permanecem silenciosas. Os relatos analisados revelaram expectativas nem sempre formalizadas, mas presentes na cultura da comunidade: disponibilidade constante, presença nas atividades, postura exemplar e a necessidade de manter-se forte mesmo diante de momentos de fragilidade.
Quando essas exigências se somam às responsabilidades familiares, profissionais e ministeriais, podem surgir sobrecarga, ansiedade, isolamento e dificuldades para estabelecer limites entre a vida pessoal e as demandas relacionadas ao ministério. Também foram identificados desafios financeiros e a percepção de que nem sempre existem espaços seguros para falar sobre dificuldades e vulnerabilidades.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostrou que essa realidade não é marcada apenas por dificuldades. A espiritualidade apareceu como uma importante fonte de sustentação emocional, por meio da oração, da leitura das Escrituras e da experiência pessoal com Deus. As redes de apoio e as práticas de autocuidado também se mostraram relevantes para o enfrentamento das demandas emocionais.
Esses resultados trazem uma reflexão necessária para a vida da igreja: fé e cuidado emocional não são realidades opostas. Reconhecer emoções, admitir limites, buscar descanso, compartilhar vulnerabilidades e procurar ajuda quando necessário não significa falta de fé. Pelo contrário, pode representar maturidade e responsabilidade diante da vida e do chamado cristão.
A Bíblia também oferece fundamentos para compreender o cuidado pessoal como parte de uma vida saudável de serviço. Jesus buscava momentos de oração e recolhimento, e Paulo orientou Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo” (1Tm 4.16). Esses exemplos ajudam a compreender que cuidar de si não precisa ser visto como egoísmo ou afastamento do serviço, mas como uma dimensão necessária para que o ministério seja vivido de maneira saudável e sustentável.
Essa perspectiva também ajuda a compreender por que nem todo sofrimento emocional deve ser espiritualizado. Há situações em que a escuta pastoral pode ser necessária; em outras, o apoio da família e da comunidade pode fazer diferença; e, em determinadas circunstâncias, o acompanhamento profissional especializado pode ser fundamental. Uma igreja madura não precisa escolher entre fé e conhecimento, mas pode promover um diálogo responsável entre espiritualidade, cuidado pastoral e saúde emocional.
A partir dos resultados, o trabalho propõe três caminhos de cuidado: escuta pastoral estruturada, grupos de apoio e discipulado emocional, e valorização institucional no ministério. Essas propostas podem contribuir para criar espaços seguros de escuta e partilha, fortalecer vínculos e desenvolver uma cultura em que as esposas de pastores sejam consideradas não apenas pelas responsabilidades que assumem, mas também por sua dignidade, seus dons, seus limites e suas necessidades.

O cuidado, portanto, não deve depender somente da capacidade individual de cada mulher de suportar as demandas do ministério. Ele precisa ser uma responsabilidade compartilhada pela família, pela liderança e pela comunidade de fé. Cuidar das esposas de pastores não significa tratá-las como frágeis ou incapazes, mas reconhecer sua humanidade e compreender que estar ao lado de um pastor não elimina a necessidade de descanso, escuta, apoio e cuidado.
Nesse sentido, Entre o Chamado e o Cuidado propõe uma mudança de olhar. O ministério cristão não deve ser sustentado pela cultura do silêncio, pela aparência permanente de força ou pela disponibilidade ilimitada, mas por uma comunidade capaz de acolher vulnerabilidades, respeitar limites e promover relações mais saudáveis.
Cuidar de quem cuida é mais do que uma estratégia de prevenção ao sofrimento; é uma expressão da própria ética cristã do cuidado. Quando a igreja cria espaços de escuta, fortalece vínculos e cuida de suas famílias pastorais, contribui para que o ministério seja exercido com maior saúde, integridade e sustentabilidade.
Porque cuidar de quem cuida também faz parte da missão da igreja.
Joelma Maria Ferreira Veríssimo
Bacharela em Teologia – Faculdade Cidade Teológica Pentecostal (FCTP)
Bacharela em Administração – UNOPAR
Ministra da Palavra | Professora da Escola Bíblica Dominical – AD Cidade
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