Harpa Cristã, nº39 (Alvo Mais que a Neve): um hino racista?

A discussão em torno do hino “Alvo Mais Que a Neve”, tradicionalmente conhecido e utilizado no meio evangélico, ganhou novos contornos a partir de uma interpretação apresentada publicamente pelo pastor Kleber Lucas, que relacionou a expressão “alvo mais que a neve” a uma possível linguagem de embranquecimento e, consequentemente, a questões relacionadas ao racismo. A discussão é importante porque envolve temas extremamente relevantes para a sociedade contemporânea, como racismo, identidade, relações étnico-raciais e a maneira como a linguagem religiosa é compreendida por diferentes grupos. Entretanto, uma análise teológica cuidadosa exige que a interpretação de um hino seja realizada considerando seu contexto bíblico, literário e histórico, evitando que uma expressão seja retirada de seu campo semântico original para receber um significado que o próprio texto não apresenta.

A expressão “alvo mais que a neve” não surgiu originalmente como uma referência à superioridade de uma determinada raça. Trata-se de uma linguagem profundamente relacionada à tradição bíblica de representação da purificação do pecado. O Salmo 51:7, por exemplo, registra a oração de Davi: “Purifica-me com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais alvo que a neve”. O contexto dessa declaração é o ARREPENDIMENTO E O PEDIDO DE PERDÃO. Davi não está fazendo uma comparação entre grupos raciais ou estabelecendo qualquer hierarquia baseada na cor da pele. A imagem da neve é utilizada poeticamente para expressar limpeza, pureza e restauração. Da mesma maneira, Isaías 1:18 declara: “Ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve”. Mais uma vez, o contraste apresentado pelo profeta é espiritual e moral, relacionado à remoção do pecado e à restauração do relacionamento com Deus.

Quando observamos o conteúdo do próprio hino “Alvo Mais Que a Neve”, essa compreensão torna-se ainda mais evidente. A letra está estruturada em torno da cruz de Cristo, do sangue de Jesus, do pecado e da purificação espiritual. A expressão “alvo mais que a neve” não aparece como uma afirmação sobre aparência humana, cor da pele ou identidade étnica. Ela está inserida em uma linguagem soteriológica, isto é, relacionada à salvação. O indivíduo é apresentado como alguém que, mediante a obra de Cristo, é purificado de seus pecados. Portanto, o “alvo” mencionado pelo hino não diz respeito à pele do indivíduo, mas à sua condição espiritual diante de Deus.

Esse ponto é fundamental para uma correta interpretação teológica. A conversão cristã, segundo o Novo Testamento, não representa uma mudança de etnia ou de aparência física. Quando Paulo afirma, em 2 Coríntios 5:17, que “se alguém está em Cristo, é nova criatura”, ele não está ensinando que a pessoa abandona sua identidade cultural ou racial. A novidade anunciada pelo apóstolo é espiritual: trata-se de uma nova relação com Deus, marcada pelo perdão, pela reconciliação e pela transformação da vida. Portanto, não existe fundamento bíblico para interpretar a obra de Cristo como um processo de embranquecimento do indivíduo.

Além disso, uma interpretação racializada da expressão também entraria em conflito com a própria concepção bíblica de humanidade. Gênesis 1:27 afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus. A dignidade humana, portanto, não está condicionada à cor da pele, à origem étnica ou à posição social. Atos 10:34 registra Pedro declarando que “Deus não faz acepção de pessoas”, enquanto Apocalipse 7:9 apresenta uma multidão formada por pessoas “de todas as nações, tribos, povos e línguas” diante do trono de Deus. A diversidade dos povos não é apresentada como um problema a ser eliminado, mas como parte da realidade da humanidade que participa da história da redenção.

Por essa razão, é necessário fazer uma distinção entre uma legítima reflexão sobre os efeitos sociais da linguagem religiosa e a atribuição de um significado ao texto que não corresponde ao seu contexto. É perfeitamente legítimo discutir como determinadas expressões podem ser recebidas por pessoas que viveram experiências históricas de racismo, exclusão ou valorização social da branquitude. Também é necessário reconhecer que símbolos religiosos podem adquirir diferentes significados em determinados contextos históricos e culturais. Entretanto, isso não significa que qualquer associação contemporânea possa ser transformada automaticamente no significado original de um texto. A interpretação teológica precisa respeitar o contexto no qual a linguagem foi construída.

Nesse sentido, considerar que “alvo mais que a neve” significa que uma pessoa negra deveria tornar-se branca para alcançar purificação espiritual constitui uma interpretação equivocada do sentido apresentado pelo hino. A letra não estabelece uma relação entre santidade e raça, não apresenta a população branca como modelo de humanidade e não ensina que a conversão produz uma transformação da identidade étnica. A metáfora pertence ao vocabulário bíblico da purificação e da redenção. Seu centro não é a cor da pele, mas o pecado; não é a raça, mas a graça; não é o embranquecimento, mas a redenção realizada por Cristo.

Isso, contudo, não significa que a Igreja possa ignorar o problema do racismo. Pelo contrário. A fé cristã oferece fundamentos muito fortes para a rejeição de qualquer forma de discriminação. Jesus ensinou o mandamento “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12:31), Tiago condenou a acepção de pessoas (Tiago 2:1-9), e a doutrina da criação afirma a dignidade de todos os seres humanos como portadores da imagem de Deus. Portanto, o cristianismo possui bases teológicas suficientes para combater o racismo sem precisar atribuir ao hino “Alvo Mais Que a Neve” um significado racial que não está presente em sua construção original.

É importante, inclusive, compreender que combater o racismo e preservar uma interpretação correta do hino não são posições contraditórias. Pelo contrário, ambas podem coexistir. A Igreja deve rejeitar categoricamente qualquer prática de inferiorização, exclusão ou discriminação baseada na raça ou na etnia, mas também deve exercer responsabilidade na interpretação de seus textos, cânticos e símbolos. Uma teologia comprometida com a verdade não deve relativizar o racismo, mas também não deve produzir acusações a partir de interpretações que desconsiderem o contexto bíblico e literário.

A polêmica em torno de “Alvo Mais Que a Neve”, portanto, oferece uma oportunidade para refletirmos não apenas sobre racismo, mas também sobre hermenêutica. Interpretar um texto religioso exige mais do que identificar palavras que, isoladamente, podem adquirir determinados significados. É necessário compreender o conjunto da mensagem, suas referências bíblicas, seu gênero literário, seu contexto histórico e sua finalidade teológica.

Assim, do ponto de vista teológico, a leitura que transforma a expressão em uma referência ao embranquecimento racial não corresponde ao sentido que o hino desenvolve. A mensagem central é outra: seres humanos de todas as origens e povos são igualmente pecadores e igualmente necessitados da graça de Deus. Em Cristo, não existe uma raça superior que precise servir de modelo para outra. Existe, antes, uma humanidade inteira convidada à reconciliação com Deus.

Em Cristo,
Prof. Dr. Guilherme Castro

*Guilherme Castro é Historiador, Químico e escritor dos livros “100 anos das Assembleias de Deus em Fortaleza: uma breve história de Azusa ao Sítio Tunga Cocó” e “Metodologias Ativas na Era da Inteligência Artificial” (Kindle). É Mestre em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela Universidade Federal de Juíz de Fora e Doutor em Química pela Universidade Federal do Ceará, com formação em Ciências da Religião. Atualmente é professor da Faculdade Cidade Teológica Pentecostal, da Secretaria de Educação do Estado do Ceará e da rede privada de Fortaleza.

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