Relações Étnico-Raciais e a Perspectiva Cristã sobre a Dignidade Humana

As relações étnico-raciais constituem uma dimensão fundamental da convivência humana, especialmente em sociedades marcadas por diferentes culturas, povos, histórias e experiências de desigualdade. Refletir sobre esse tema a partir da perspectiva cristã significa reconhecer que a dignidade humana não está fundamentada na cor da pele, na origem étnica, na nacionalidade, na condição social ou em qualquer outra característica particular, mas no fato de que todo ser humano possui valor diante de Deus.

A Bíblia apresenta a humanidade como criação de Deus. Em Gênesis 1:27, afirma-se que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. A chamada imago Dei (imagem de Deus) constitui um dos fundamentos teológicos mais importantes para compreender a dignidade humana. Se todos os seres humanos são portadores da imagem divina, não existe fundamento bíblico para estabelecer uma hierarquia de valor entre pessoas em razão de sua origem, etnia ou aparência.

Essa compreensão possui importantes implicações para as relações étnico-raciais. A diversidade dos povos não deve ser compreendida como uma ameaça à unidade humana, mas como uma expressão da própria pluralidade da criação. Diferenças culturais, linguísticas e étnicas fazem parte da experiência humana e não autorizam a construção de sistemas de superioridade e inferioridade entre grupos.

O Novo Testamento reforça essa perspectiva ao afirmar que, diante de Deus, as distinções humanas não podem ser utilizadas como fundamento para discriminação. Em Gálatas 3:28, Paulo declara: “Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. O objetivo desse texto não é negar a existência das diferenças culturais, sociais ou biológicas, mas afirmar que tais diferenças não determinam o valor espiritual ou a dignidade de uma pessoa diante de Deus.

Outro princípio fundamental encontra-se em Tiago 2:1-4, quando o autor condena a prática da acepção de pessoas dentro da comunidade cristã. O texto apresenta uma situação em que pessoas são tratadas de maneira diferente em razão de sua condição social. Embora o episódio não trate especificamente do racismo moderno, seu princípio ético é amplo: a comunidade cristã não deve estabelecer critérios de superioridade humana baseados em características externas ou posição social.

Tiago afirma: “Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas.” (Tiago 2:1) A advertência é particularmente relevante para as relações étnico-raciais porque demonstra que a fé cristã é incompatível com práticas de favoritismo, exclusão e desprezo pelo outro. A discriminação transforma uma característica particular do indivíduo em critério de valorização ou desvalorização humana, contrariando o princípio bíblico da dignidade universal.

O ensino de Jesus também apresenta o amor ao próximo como fundamento da vida ética. Em Marcos 12:31, ao responder sobre o maior mandamento, Jesus afirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O “próximo”, na perspectiva bíblica, não deve ser limitado àquele que pertence ao mesmo grupo social, cultural ou étnico. Essa compreensão é evidenciada de maneira particularmente forte na parábola do bom samaritano, registrada em Lucas 10:25-37.

A escolha de um samaritano como personagem exemplar possui grande relevância. Judeus e samaritanos viviam em um contexto histórico marcado por profundas tensões e hostilidades. Ainda assim, na parábola, é justamente o samaritano quem demonstra compaixão pelo homem ferido. Jesus, portanto, desloca a pergunta de “quem é o meu próximo?” para uma questão de responsabilidade: quem se torna próximo daquele que necessita de cuidado?

Essa passagem oferece um importante princípio para as relações étnico-raciais: a identidade do outro não deve ser utilizada como justificativa para sua desumanização. O amor cristão ultrapassa fronteiras construídas pela sociedade e exige disposição para reconhecer a dignidade daquele que é diferente de nós.

Outro texto significativo encontra-se em Atos 10:34-35. Ao compreender que o evangelho deveria alcançar também os gentios, Pedro declara: “Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas; pelo contrário, em qualquer nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável.”

A passagem possui especial importância para uma teologia das relações étnico-raciais. A expressão “Deus não faz acepção de pessoas” apresenta um princípio de universalidade da ação divina. A mensagem cristã não está restrita a uma única etnia, povo ou cultura.

Essa universalidade também aparece na visão descrita em Apocalipse 7:9, na qual João contempla “uma grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro”. A diversidade dos povos não desaparece na presença de Deus. Ao contrário, ela é explicitamente mencionada. A imagem bíblica aponta para uma comunidade marcada pela pluralidade, na qual diferentes povos participam conjuntamente da adoração.

Nesse sentido, uma teologia cristã comprometida com as relações étnico-raciais deve rejeitar qualquer interpretação que utilize a Bíblia para legitimar racismo, segregação, escravidão ou superioridade étnica. Ao longo da história, textos bíblicos foram, em determinados contextos, utilizados de maneira inadequada para justificar práticas de dominação e discriminação. Entretanto, tais interpretações precisam ser analisadas criticamente à luz do conjunto da narrativa bíblica e de seus princípios fundamentais de justiça, amor, dignidade e igualdade diante de Deus.

É importante também distinguir diferença de desigualdade discriminatória. Reconhecer que existem diferentes povos, culturas e identidades não significa estabelecer uma hierarquia entre eles. A diversidade étnico-cultural pode coexistir com a igualdade de dignidade. O problema surge quando uma diferença é transformada em instrumento de exclusão, inferiorização, violência ou negação de direitos.

Nesse contexto, a responsabilidade cristã não deve limitar-se a evitar manifestações explícitas de preconceito. O princípio do amor ao próximo também convida à reflexão sobre estruturas e práticas sociais que podem produzir exclusão. Romanos 12:15 orienta: “Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram”. Esse princípio pressupõe empatia e disposição para compreender a experiência do outro.

Da mesma forma, Miqueias 6:8 apresenta uma síntese importante da responsabilidade ética: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus”. Justiça e misericórdia não são elementos secundários da espiritualidade bíblica. Elas fazem parte da própria resposta humana à vontade de Deus.

Portanto, combater o preconceito étnico-racial não significa apenas defender uma ideia abstrata de igualdade. Significa reconhecer concretamente a dignidade daquele que é diferente, rejeitar atitudes de inferiorização, promover relações baseadas no respeito e enfrentar práticas que produzam exclusão e injustiça.

Em Cristo,

Guilherme Castro é Historiador, Químico e escritor dos livros “100 anos das Assembleias de Deus em Fortaleza: uma breve história de Azusa ao Sítio Tunga Cocó” e “Metodologias Ativas na Era da Inteligência Artificial” (Kindle). É Mestre em Gestão e Avaliação da Educação Pública pela Universidade Federal de Juíz de Fora e Doutor em Química pela Universidade Federal do Ceará, com formação em Ciências da Religião. Atualmente é professor da Faculdade Cidade Teológica Pentecostal, da Secretaria de Educação do Estado do Ceará e da rede privada de Fortaleza.

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