Vivemos tempos em que o nome de Cristo é proclamado, mas nem sempre o Cristo que se prega corresponde ao Cristo revelado nas Escrituras. Em muitos púlpitos e plataformas digitais, Jesus foi transformado em um meio para se alcançar fins puramente humanos.
Um facilitador de sonhos, um coach celestial, um despachante de bênçãos materiais. Diante dessa distorção, a pergunta que todo cristão sincero precisa fazer é esta: de qual Cristo nós realmente precisamos? A resposta não pode vir das últimas tendências do mercado religioso, mas da revelação bíblica, que é a única fonte segura para conhecermos quem Ele verdadeiramente é.
O Cristo que precisamos é, antes de tudo, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade (João 1.14). Ele não veio ao mundo para nos tornar ricos segundo os padrões terrenos, mas para nos reconciliar com o Pai por meio do sacrifício de si mesmo.
Paulo escreveu aos Filipenses que Cristo Jesus, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devesse apegar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo (Filipenses 2.6-7). O Cristo das Escrituras é o Deus que se esvazia, que desce, que se humilha até a morte de cruz. Qualquer teologia que ignore essa kénosis e apresente um Jesus que só exalta, enriquece e promove está pregando outro evangelho.
A chamada teologia da prosperidade reduziu Cristo a um instrumento de aquisição material. Nessa perspectiva, a fé se torna uma moeda de troca, e Deus, um devedor do homem. Cita-se Malaquias 3.10 como se a aliança veterotestamentária dos dízimos fosse uma fórmula automática de retorno financeiro, ignorando que o próprio Jesus alertou: “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem” (Mateus 6.19). O Cristo da Bíblia não prometeu uma vida sem dificuldades. Pelo contrário, Ele disse com toda clareza: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16.33).
Por outro lado, a teologia coach transformou Jesus em um palestrante motivacional. Cristo teria vindo para ensinar princípios de liderança, alta performance e realização pessoal. A cruz se torna uma metáfora de superação, e a ressurreição, uma lição de resiliência. Mas o Cristo bíblico não morreu para nos motivar. Ele morreu porque éramos pecadores, incapazes de nos salvar (Romanos 5.8). A cruz não é uma técnica. A cruz é substituição.
Precisamos do Cristo profético, aquele que não apenas consola, mas também confronta. Jesus não foi um líder popular que dizia ao povo apenas o que ele queria ouvir. Ele virou mesas no templo (Mateus 21.12), chamou os fariseus de sepulcros caiados (Mateus 23.27) e disse ao jovem rico que vendesse tudo e o seguisse (Marcos 10.21). O Cristo das Escrituras incomoda. Ele exige arrependimento, santidade e negação de si mesmo. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24).
Nós, pentecostais, cremos na atualidade dos dons espirituais e na operação poderosa do Espírito Santo. E justamente por isso precisamos ter ainda mais cuidado, pois o próprio Espírito tem como missão central glorificar a Cristo (João 16.14), e não a nós mesmos. Uma espiritualidade verdadeiramente pentecostal é cristocêntrica.
Quando os dons são usados para espetáculo, quando as manifestações servem para promover homens e quando a experiência substitui a Palavra, o Espírito está sendo desonrado. O avivamento que precisamos não é barulho sem conteúdo, mas é fogo que arde sobre o fundamento da sã doutrina.
É nesse sentido que uma formação teológica séria se torna não apenas útil, mas necessária. Trata-se de conhecer profundamente as Escrituras para não ser levado por todo vento de doutrina (Efésios 4.14). Oséias já lamentava: “O meu povo foi destruído porque lhe faltou o conhecimento” (Oséias 4.6). Um pastor, um líder, um crente que não conhece a Palavra com profundidade está vulnerável a enganos que se revestem de piedade. Estudar teologia com seriedade é um ato de amor ao Senhor e à Igreja.
O Cristo que precisamos é aquele que a Bíblia revela do Gênesis ao Apocalipse. É o Cordeiro imolado desde a fundação do mundo (Apocalipse 13.8), o Sumo Sacerdote que intercede por nós (Hebreus 7.25), o Rei que voltará em glória para julgar os vivos e os mortos (2 Timóteo 4.1). Ele é suficiente. Não precisamos acrescentar nada a Cristo para torná-lo mais atraente ou mais relevante. Toda tentativa humana de “melhorar” o evangelho resulta em sua destruição.
Portanto, o apelo que ecoa neste tempo é esse: precisamos retornar a uma teologia bíblica e cristocêntrica. Precisamos rever o que temos pregado, cantado, ensinado e vivido à luz da Palavra de Deus. Não à luz do mercado, não à luz do que funciona numericamente, não à luz do que agrada aos ouvidos.
Que o Espírito Santo nos conduza de volta ao evangelho puro e simples, ao Cristo das Escrituras, ao único nome dado entre os homens pelo qual devemos ser salvos (Atos 4.12). A Ele seja toda a glória, agora e para sempre.
Thiago Holanda é economista e doutorando em Administração e Controladoria pela Universidade Federal do Ceará, com formação em Teologia e Aconselhamento Bíblico. Atualmente, é professor do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Ceará (IFCE). É presbítero da AD Cidade e atua na liderança da Juventude Livre. Seus interesses de pesquisa concentram-se em aconselhamento, teologia pastoral e teologia econômica.